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Penhora de imóvel: o que é e como funciona

A penhora de imóvel é a constrição judicial de um bem para garantir o pagamento de uma dívida em uma ação. Para quem compra, é um dos maiores riscos ocultos: adquirir um imóvel penhorado pode levar à perda do bem por fraude à execução. Para quem vende, uma penhora pode travar a transferência. Este guia explica o que é a penhora, como um imóvel é penhorado, quando o bem de família é impenhorável, como verificar antes de comprar e como dar baixa na penhora.

Pontos-chave

  • ✓Penhora é a constrição judicial de um imóvel para garantir o pagamento de uma dívida.
  • ✓A penhora é averbada na matrícula e pode levar o imóvel a leilão.
  • ✓O bem de família é, em regra, impenhorável — mas há exceções na lei.
  • ✓Comprar imóvel penhorado pode configurar fraude à execução e perda do bem.

Resposta rápida

Penhora de imóvel é o ato judicial que separa um imóvel do patrimônio do devedor para garantir o pagamento de uma dívida cobrada em juízo. A penhora é averbada na matrícula e, se a dívida não for paga, o imóvel pode ser levado a leilão. Comprar um imóvel penhorado é arriscado: pode configurar fraude à execução e o comprador perder o bem. Por isso, sempre verifique a certidão de ônus reais e as certidões de ações antes de fechar negócio.

O que é penhora de imóvel

Penhora é o ato processual pelo qual o juiz individualiza e apreende um bem do devedor para garantir o pagamento de uma dívida cobrada em uma ação de execução ou no cumprimento de sentença. Quando recai sobre um imóvel, a penhora é averbada na matrícula, tornando pública a restrição: qualquer pessoa que consulte a matrícula vê que o bem responde por uma dívida.

A penhora não transfere a propriedade: o imóvel continua sendo do devedor, mas fica vinculado ao processo. Se a dívida não for paga, o imóvel penhorado pode ser levado a leilão judicial, e o valor arrecadado é usado para quitar o débito. É diferente da hipoteca e da alienação fiduciária, que são garantias criadas voluntariamente pelo próprio dono.

A penhora pode nascer de dívidas variadas: execuções fiscais (impostos), ações trabalhistas, cobranças de bancos, pensão alimentícia ou condomínio em atraso. Por isso, verificar a existência de penhora é parte essencial da diligência de qualquer compra de imóvel.

Penhora, hipoteca e alienação fiduciária: diferenças

É comum confundir a penhora com outras restrições que aparecem na matrícula. As três recaem sobre o imóvel e limitam sua venda, mas têm origem e efeitos bem diferentes. Entender a distinção ajuda a ler a certidão de ônus reais com segurança:

PenhoraComo nasceImposta pelo Judiciário em uma ação para garantir uma dívida.Efeito principalVincula o imóvel ao processo; pode levar a leilão judicial.
HipotecaComo nasceCriada voluntariamente pelo dono como garantia de uma dívida.Efeito principalDá ao credor preferência no pagamento; o imóvel segue do dono.
Alienação fiduciáriaComo nasceCriada no financiamento; a propriedade fica com o credor até a quitação.Efeito principalPermite retomada extrajudicial em caso de inadimplência.

Enquanto a hipoteca e a alienação fiduciária são garantias voluntárias, a penhora é forçada. Todas, porém, precisam ser verificadas antes da compra na certidão de ônus reais.

Uma garantia real voluntária mais rara, ainda prevista no Código Civil, é a anticrese, em que o credor recebe os frutos do imóvel — nunca a propriedade.

Como um imóvel é penhorado

A penhora de um imóvel segue um rito processual. Ela não acontece de surpresa: depende de uma ação em andamento e de decisão judicial. Entender as etapas ajuda tanto o devedor quanto o comprador a avaliar o risco:

  1. 1

    Existência da dívida cobrada em juízo — Há uma ação de execução ou cumprimento de sentença em que o devedor não pagou o valor devido.

  2. 2

    Decisão que determina a penhora — O juiz determina a penhora de bens do devedor, incluindo o imóvel indicado pelo credor ou localizado no processo.

  3. 3

    Averbação na matrícula — A penhora é averbada no Cartório de Registro de Imóveis, dando publicidade à restrição na matrícula do imóvel.

  4. 4

    Avaliação e leilão — Se a dívida não for quitada, o imóvel é avaliado e levado a leilão judicial para satisfazer o credor.

Enquanto a penhora existe, o devedor ainda pode tentar acordos, parcelar a dívida ou substituir o bem penhorado por outra garantia. A averbação na matrícula é o marco que torna a penhora oponível a terceiros — inclusive a eventuais compradores.

O que pode ser penhorado primeiro (art. 835 do CPC)

O imóvel raramente é o primeiro bem atingido. O art. 835 do Código de Processo Civil fixa uma ordem de preferência para a penhora, e os bens imóveis aparecem só depois do dinheiro e de aplicações financeiras. Saber essa ordem ajuda o devedor a oferecer alternativa e o comprador a medir o risco real:

IBemDinheiro, em espécie ou em depósito/aplicação financeiraObservação práticaPrioridade absoluta; é o bloqueio eletrônico de contas (Sisbajud).
IIBemTítulos da dívida pública com cotação em mercadoObservação práticaAceitos quando há liquidez comprovada.
IIIBemTítulos e valores mobiliários com cotação em mercadoObservação práticaAções e fundos negociados em bolsa.
IVBemVeículos de via terrestreObservação práticaBloqueio via Renajud antes de atingir o imóvel.
VBemBens imóveisObservação práticaÉ aqui que entra a penhora do imóvel, averbada na matrícula.
VI–XIIIBemMóveis, semoventes, navios e aeronaves, direitos, percentual de empresa, faturamento, pedras e metais preciosos, entre outrosObservação práticaA ordem é relativa: o juiz pode alterá-la conforme o caso concreto (art. 835, §1º).

O §1º do art. 835 deixa claro que a ordem é preferencial, não rígida: dinheiro tem prioridade, mas o juiz pode adequar as demais posições às circunstâncias do processo. Na prática, o imóvel costuma ser penhorado quando as tentativas de bloqueio de conta e de veículos não cobrem a dívida.

Bem de família é impenhorável (com exceções)

A Lei 8.009/90 protege o imóvel residencial da família contra penhora: em regra, o único imóvel usado como moradia da entidade familiar é impenhorável, mesmo que o proprietário tenha dívidas. Essa proteção existe para garantir o direito à moradia. Mas ela não é absoluta — a própria lei prevê exceções em que o bem de família pode ser penhorado:

  • •Dívidas de financiamento do próprio imóvel (alienação fiduciária ou hipoteca).
  • •Débitos de IPTU, taxas e condomínio do próprio imóvel.
  • •Pensão alimentícia devida pelo proprietário.
  • •Dívidas trabalhistas de empregados da própria residência, nas hipóteses legais.
  • •Imóvel oferecido voluntariamente como garantia (hipoteca) pelo casal.

Fora dessas exceções, o único imóvel residencial da família tende a ser protegido. Quem tem mais de um imóvel deve saber que a proteção recai, em regra, sobre o de menor valor usado como moradia — os demais podem ser penhorados. Em caso de dúvida, o apoio jurídico ajuda a avaliar a situação concreta.

A jurisprudência ampliou essa proteção: pela Súmula 486 do STJ, é impenhorável o único imóvel do devedor que esteja alugado, desde que a renda seja usada para a moradia da família. A regra geral de impenhorabilidade de outros bens também está no art. 833 do Código de Processo Civil. Para entender em detalhe quando a moradia é protegida, veja o guia sobre a proteção do bem de família.

Enquanto o devedor mantém o imóvel, é possível negociar quitar a dívida por dação em pagamento antes que o leilão aconteça.

Bens impenhoráveis e as exceções (art. 833 do CPC e Lei 8.009/90)

Duas normas definem o que está fora do alcance da penhora: o art. 833 do CPC e a Lei 8.009/90 (bem de família). A tabela resume o que é protegido e em que hipótese a proteção cai:

Imóvel residencial único da famíliaBase legalLei 8.009/90, art. 1ºQuando a proteção NÃO valeDívidas do próprio imóvel (financiamento, IPTU, condomínio), pensão alimentícia e imóvel dado voluntariamente em garantia (art. 3º).
Único imóvel alugado cuja renda sustenta a moradiaBase legalSúmula 486 do STJQuando a proteção NÃO valeQuando a renda não é comprovadamente destinada à moradia da família.
Móveis, utensílios e pertences que guarnecem a residênciaBase legalCPC art. 833, IIQuando a proteção NÃO valeBens de elevado valor ou que ultrapassem o padrão médio de vida.
Salários, aposentadorias e pensõesBase legalCPC art. 833, IVQuando a proteção NÃO valePensão alimentícia e valores acima de 50 salários mínimos mensais (art. 833, §2º).
Poupança até 40 salários mínimosBase legalCPC art. 833, XQuando a proteção NÃO valeValor excedente ao limite e dívidas de natureza alimentar.
Pequena propriedade rural trabalhada pela famíliaBase legalCPC art. 833, VIII · CF art. 5º, XXVIQuando a proteção NÃO valeDívidas não decorrentes da atividade produtiva, conforme análise do caso.

Alegar impenhorabilidade não é automático: a proteção precisa ser invocada no processo, com prova de que o imóvel é a moradia da família (contas de consumo, declaração de IR, comprovantes de endereço). O reconhecimento judicial é justamente uma das causas de baixa da penhora.

Exemplo real: a penhora que apareceu depois da proposta

Um comprador negocia um apartamento de R$ 420.000 direto com o proprietário. A matrícula solicitada no início da conversa está limpa — nenhum gravame averbado. Dois meses depois, já com proposta aceita e sinal discutido, ele pede a matrícula atualizada e as certidões pessoais do vendedor antes de assinar. Aparecem duas informações novas:

  • →Certidão de distribuição cível da comarca: uma execução de título extrajudicial contra o vendedor, ajuizada quatro meses antes, com valor atualizado de R$ 180.000.
  • →Matrícula atualizada: averbação de penhora feita três semanas antes, vinculada a essa execução.
  • →CNDT: certidão positiva, indicando também um débito trabalhista em fase de cumprimento de sentença.

O que muda na prática: comprar nesse estado significaria adquirir um imóvel que responde por dívida judicial, com risco concreto de reconhecimento de fraude à execução — o comprador poderia perder o bem mesmo tendo pago. As três saídas discutidas foram: (1) o vendedor quitar ou acordar a execução e averbar a baixa da penhora antes da escritura; (2) depósito do preço em juízo, destinando parte à quitação da dívida, com anuência do credor e autorização judicial; (3) desistir do negócio. O comprador seguiu a rota 1, com prazo contratual: a escritura só seria lavrada após a averbação do cancelamento na matrícula.

A lição prática: matrícula limpa no início da negociação não vale no dia da assinatura. Peça matrícula e certidões atualizadas nos 30 dias anteriores à escritura — a penhora pode ser averbada no meio do caminho.

Comprar imóvel penhorado: riscos e fraude à execução

Comprar um imóvel penhorado é um dos maiores riscos em uma negociação. Se o devedor vende o imóvel depois de já responder a uma ação capaz de levá-lo à insolvência, a venda pode ser considerada fraude à execução — e o comprador pode perder o bem, mesmo tendo pago por ele. A penhora "acompanha" o imóvel.

O perigo é maior quando a penhora ainda não foi averbada na matrícula, mas já existe ação em curso. Por isso, além da certidão de ônus reais, o comprador deve exigir as certidões de ações cíveis, fiscais, trabalhistas e de execução em nome do vendedor. Um imóvel "limpo" na matrícula pode esconder ações que ainda vão gerar penhora.

Não confunda esse cenário com a compra de imóvel em leilão judicial: nesse caso, é o próprio Judiciário que vende o bem penhorado, com regras específicas e maior segurança quanto à origem. O risco está em comprar direto de um devedor com ações em andamento.

Como saber se um imóvel está penhorado

A boa notícia é que a penhora é verificável. Antes de comprar, faça uma diligência documental completa, que também protege contra outros gravames. Os documentos essenciais são:

  • →Certidão de matrícula atualizada, para ver penhoras e ônus averbados.
  • →Certidão de ônus reais, que consolida os gravames sobre o imóvel.
  • →Certidões de ações cíveis, fiscais e de execução em nome do vendedor.
  • →Certidões trabalhistas (CNDT) do vendedor.
  • →Certidões de distribuição das comarcas onde o vendedor mora ou atua.

Se qualquer certidão apontar ação ou penhora, não avance sem esclarecer a situação. Uma penhora averbada é um sinal claro; ações em andamento sem penhora ainda são um risco de fraude à execução. Essa verificação é o coração da due diligence imobiliária. a due diligence imobiliária reúne o checklist completo.

Uma etapa antes, na mesma linha do tempo, está a averbação premonitória: o credor pode anotar a ação na matrícula muito antes de a penhora efetivamente recair sobre o imóvel.

O atraso na taxa de condomínio está entre as poucas dívidas que permitem penhorar a unidade mesmo quando ela é o imóvel de moradia da família.

Como dar baixa na penhora

A penhora não é definitiva: uma vez resolvida a causa que a gerou, ela pode ser cancelada e o imóvel volta a ficar livre. A baixa da penhora depende de decisão judicial e da averbação do cancelamento na matrícula. As formas mais comuns de extinção são:

  • →Pagamento ou acordo que quita a dívida do processo.
  • →Substituição do imóvel por outra garantia aceita no processo.
  • →Reconhecimento judicial de que o bem é impenhorável (bem de família).
  • →Extinção da execução por qualquer outra causa legal.

Após a decisão que determina o levantamento da penhora, obtém-se o mandado ou ofício judicial e leva-se o documento ao Cartório de Registro de Imóveis. A averbação da baixa na matrícula é o que libera o imóvel para a venda com segurança.

Se um terceiro toma a posse física enquanto a penhora é resolvida, o credor ou novo proprietário pode precisar da ação de reintegração de posse para retomar a posse.

Publicado em: 11 de julho de 2026Atualizado em: 23 de setembro de 2026